“Chega de agrotóxicos”: o povo foi, a maioria dos vereadores não

COOPERATIVA DOS • 25 de agosto de 2026

“Chega de agrotóxicos”: o povo foi, a maioria dos vereadores não


Em Lago do Junco (MA), quebradeiras de coco babaçu retomam luta pela aprovação do PL Zona Livre de Veneno

A luta pela preservação dos babaçuais é permanente. As quebradeiras de coco babaçu, na trincheira, não se permitem cochilar. A violência dos senhores do latifúndio, que atravessa os territórios, nunca cessou. Da década de 70 para cá, só mudou de forma. A pulverização aérea, por meio de drone, é, de forma palpável, evidência de que as opressões também se modernizam.


Na manhã da última quinta-feira (20), mulheres ocuparam a Câmara de Vereadores de Lago do Junco, Maranhão. Também participaram trabalhadores do campo, juventudes e movimentos sociais. Destaque para a ausência de sete dos nove vereadores eleitos. São eles: Felipe Silva, Francisco Erinaldo, Marinete Oliveira, Matheus Vilarins, Raimundo de Sousa, Ronaldo Sousa e Jair Alves.


Ao ver o espaço ocupado por estudantes, em sua maioria crianças, a coordenadora-geral da ASSEMA, Maria Eliane, disse que haverão de se lembrar das mulheres que tocaram a luta pela vida e contra os agrotóxicos, mas também dos que, porventura, se colocarem contra.


“Quando estiverem na faculdade, olharão para essas mulheres. Terão o prazer de dizer o nome e o sobrenome de quem apoiou, votou a favor e de quem votou contra. Não vão se esquecer de quem cantou, aqui, para que tivesse uma vida com soberania”, disse Eliane, ao integrar a mesa de abertura juntamente com outras representações.


A Audiência Pública Popular sobre os impactos dos agrotóxicos, tendo como temática “Territórios Livres de Veneno: em defesa da vida, da saúde e dos territórios”, marca a retomada de uma luta que ainda esbarra na insensibilidade de parte dos parlamentares, diante de uma pauta que demanda urgência.


O evento foi organizado pela Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais de Lago do Junco e Lago dos Rodrigues (AMTR) e Cooperativa dos Pequenos Produtores Agroextrativistas de Lago do Junco– COPPALJ, com parceria da Associação em Área de Assentamento no Estado do Maranhão (ASSEMA), Rede de Agroecologia do Maranhão (RAMA), Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB), Associação Comunitária de Educação em Saúde e Agricultura (ACESA), CEFFA Manoel Monteiro, União das Associações das Escolas Famílias Agrícolas do Maranhão – UAEFAMA e Campanha Contra os Agrotóxicos.

“Em 2024, nós estivemos aqui, nessa Câmara Municipal, trazendo esta pauta, que foi rejeitada. Agora voltamos com essa demanda: zona livre de agrotóxicos. Estamos aqui para falar sobre a importância deste Projeto de Lei”, ressaltou Maria das Dores (Dorinha), da AMTR.


A parlamentar Elidevan Ferreira fez uma defesa do PL, do qual é relatora. Lembrou que não se trata apenas de uma questão de saúde presente, mas com incidência para as futuras gerações. “Ouvimos, há pouco, o promotor argumentando que na Europa se produz aproximadamente 3 mil tipos de agrotóxicos. Podemos nos fazer essa pergunta: por que não os consomem? Porque sabem que esses produtos matam e são exportados para cá”.


“O controle no Brasil é praticamente inexistente. Qualquer pessoa pode comprar um drone pela internet, para fins de pulverização, de casa e receber também em casa. Daí conseguirá espalhar esse produto sem a gente saber, poder acompanhar e produzir responsabilidade com quem trabalha errado”, destacou Dr. Claudio Rebêlo, presidente do Fórum Estadual de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos e Transgênicos do Maranhão, durante sua participação no painel “Agrotóxicos e seus impactos nos territórios”.


“Se a gente encontra um ambiente contaminado, a gente encontra pessoas contaminadas”, disse Dra. Fernanda Savickide, agrônoma e pesquisadora da Fiocruz, ao destacar que não existe uso seguro de agrotóxicos, durante apresentação de parte do “Vivendo em territórios contaminados: um dossiê sobre agrotóxicos nas águas do Cerrado”. “Qualquer exposição é comprometedora à saúde humana. O tomate, por exemplo, ainda que esteja dentro do limite aceitável, também vai interagir com a cebola contaminada, com o arroz, o feijão. Essa ideia de termos um uso seguro é totalmente fantasiosa”, acrescentou.

Dados apresentados pela Dra. Georgiana Marques – NEA/Monte Castelo, durante o painel, dão conta de que, com a expansão da soja no Maranhão, houve um acréscimo de 191,5% no uso de agrotóxicos, de 2013 a 2022, colocando em risco a biodiversidade e as comunidades.


Almir Soares lembrou que o cooperativismo e a cadeia do babaçu estão em risco. Para ele, a pulverização aérea de agrotóxicos é uma ameaça à saúde e à bioeconomia promovida pela COPPALJ.


“Represento mil e duzentos fornecedores de babaçu. Hoje temos o selo orgânico, pelo qual devemos zelar. Se for constatado, na nossa matéria-prima, a amêndoa, que tem indício de agrotóxicos, nós vamos perder esse selo”, advertiu Almir.

No momento seguinte, houve a leitura da minuta do PL Zona Livre de Agrotóxicos, por Juliana Gama, assessora jurídica da RAMA, havendo, logo em seguida, momento destinado exclusivamente às comunidades e pessoas atingidas, com participação de Silvianete Matos, secretária executiva da ASSEMA, e Almir Soares, presidente da COPPALJ, e Hikeane de Sousa Oliveira, aluna da Escola Família de Lago da Pedra.


“Nós estamos dizendo neste PL, a partir das mudanças em relação ao anterior, que queremos uma zona livre de agrotóxicos, a partir das regras postas nele e, para isso, o poder público municipal precisa, nesse processo de transição, apresentar alternativas capazes de criar um território de soberania alimentar e nutricional”, pontuou Ariana Gomes, secretária executiva da RAMA, destacando que o PL apresenta como proibição imediata a pulverização aérea por meio de drones e aeronaves; já no que diz respeito a outras aplicações de veneno, prevê um período de transição.



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Na terça-feira (25), o povoado Ludovico, em Lago do Junco (MA), vivenciou um momento importante para a Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais (AMTR), COPPALJ e organizações parceiras, como a ASSEMA. A comunidade recebeu a ministra do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Fernanda Machiaveli, a ministra da Igualdade Racial, Rachel Barros, Silvio Porto, presidente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), e o superintendente do Incra no Maranhão, Levi Pinho. A visita possibilitou uma aproximação com o manejo sustentável do coco babaçu e destacou a importância das políticas públicas na vida das quebradeiras de coco. Um dos pontos de visita da caravana governamental foi a cantina da COPPALJ, em Ludovico, com recepção e uma breve explanação da sócia Sebastiana Gomes (Dona Sibá) e do cantineiro Sergio Costa. Eles destacaram como esses espaços fortalecem a economia das comunidades e contribuem para a conservação dos territórios. À primeira vista, uma cantina pode parecer um pequeno comércio no meio de uma comunidade. Prateleiras com alimentos, produtos de limpeza, ferramentas e outros itens fazem parte da rotina de quem vive nesses territórios. Mas, por trás desse espaço, existe uma história de resistência, organização comunitária, preservação ambiental e busca por autonomia econômica. Foi essa realidade que as ministras conheceram durante a visita ao povoado Ludovico, em Lago do Junco (MA). A passagem pela cantina permitiu conhecer de perto uma experiência construída pelas próprias comunidades e que tem o babaçu como elemento central de uma economia baseada no uso sustentável da biodiversidade. O que são as cantinas? As cantinas são estruturas comerciais instaladas dentro das comunidades extrativistas da cadeia do babaçu no Maranhão. Criadas por iniciativa da COPPALJ, elas permitem que as quebradeiras de coco e demais produtores comercializem diretamente as amêndoas de babaçu ou façam a troca por produtos de consumo. A proximidade é uma das características fundamentais desse modelo. Em vez de percorrer longas distâncias para comercializar sua produção ou comprar produtos básicos, as famílias encontram na própria comunidade um espaço de comércio e de apoio. Mas a função das cantinas vai muito além da venda de mercadorias. Elas são também espaços de diálogo, organização, formação, acompanhamento da produção e fortalecimento das relações entre a cooperativa e as comunidades. Como são administradas por associados e seus familiares, existe ainda uma dimensão de proximidade e pertencimento que diferencia essas estruturas de um comércio convencional. Uma história que começou com resistência Para compreender a importância das cantinas, é preciso olhar para a história das comunidades do Médio Mearim. Durante décadas, famílias que viviam do extrativismo e da agricultura enfrentaram dificuldades para acessar os babaçuais e comercializar sua produção. Donos de terras e atravessadores exerciam forte influência sobre a economia local. As relações de troca eram marcadas por grande desigualdade. Há registros de situações em que 10 quilos de amêndoas de babaçu eram trocados por apenas um quilo de arroz ou de café . A reação das comunidades deu origem a um amplo processo de organização social, com participação decisiva das mulheres quebradeiras de coco babaçu. A criação da AMTR, da ASSEMA e, posteriormente, da COPPALJ fez parte desse processo de construção de alternativas para garantir acesso aos babaçuais, organizar a produção e criar mecanismos próprios de comercialização. Em 1989, a COPPALJ foi fundada com o objetivo de organizar a produção das famílias e estimular a autonomia econômica dos associados. No mesmo ano, foram instaladas as primeiras cantinas em oito povoados. Desde então, elas passaram por diferentes momentos, incluindo dificuldades administrativas, redução do número de unidades e, posteriormente, um processo de reorganização, formação e expansão. Onde conservação e economia se encontram O babaçu é parte fundamental da vida das comunidades. Da palmeira são aproveitadas diferentes partes e, entre seus principais produtos, está o óleo extraído das amêndoas. A atividade extrativista também está associada à manutenção dos babaçuais e à permanência das famílias em seus territórios. Nesse contexto, a geração de renda e a conservação ambiental caminham juntas. Valorizar economicamente o babaçu cria condições para que as comunidades continuem encontrando nele uma fonte de sustento. Ao mesmo tempo, o uso sustentável dos recursos naturais contribui para a conservação das áreas de babaçuais. É uma lógica que coloca a biodiversidade como parte da economia local, sem separar a proteção ambiental das necessidades de quem vive no território. O trabalho das quebradeiras No centro dessa história estão as mulheres quebradeiras de coco babaçu. A coleta pode ser realizada por pessoas associadas ou não à cooperativa. Depois da coleta, as amêndoas são retiradas do coco, tradicionalmente com ferramentas como o machado e a foice. Atualmente, a quebra costuma ser realizada nos próprios quintais das famílias, o que proporciona maior autonomia e aproveitamento do babaçu. Depois de reunidas, as amêndoas são levadas às cantinas, onde são comercializadas diretamente. As quebradeiras podem receber o pagamento em dinheiro ou trocar o valor correspondente por produtos disponíveis na própria cantina. Uma economia que permanece na comunidade As cantinas também desempenham um papel importante no abastecimento das comunidades. Os estabelecimentos podem oferecer uma grande variedade de produtos, incluindo alimentos, itens de limpeza, material escolar, ferramentas, sementes, insumos agrícolas, equipamentos de segurança e materiais de construção. Isso significa que a cantina não atua apenas na compra das amêndoas. Ela também oferece às famílias alternativas para adquirir produtos necessários para o cotidiano e para o trabalho. Os resultados dessa dinâmica podem ser percebidos na própria transformação das comunidades. A renda obtida com o extrativismo e com a cadeia produtiva do babaçu contribui para melhorar as condições de vida das famílias, permitindo investimentos em moradia, equipamentos e outros bens. Da amêndoa ao óleo de babaçu Depois de recebidas nas cantinas, as amêndoas são coletadas pela cooperativa e levadas para a agroindústria da COPPALJ, em Lago do Junco. Ali, passam pelo processo de beneficiamento que dá origem ao óleo de babaçu filtrado, destinado à indústria cosmética, e ao óleo refinado, destinado à alimentação. Os produtos também chegam a organizações parceiras, que utilizam o óleo na produção de itens como sabão e sabonete de babaçu. O processo de prensagem gera ainda a torta de babaçu, utilizada como ração animal. Assim, o aproveitamento do babaçu se multiplica e cria oportunidades em diferentes etapas da atividade produtiva. Juventude e novas formas de fazer A experiência das cantinas também vem sendo renovada pelas novas gerações. Jovens das comunidades passaram a ocupar espaços na gestão das cantinas e em atividades relacionadas ao beneficiamento do babaçu. A formação técnica e político-social tem sido parte desse processo. A modernização trouxe novos recursos para a gestão, como sistemas eletrônicos de controle de caixa e depósito, pagamentos por PIX e cartão e ferramentas voltadas à rastreabilidade. Ao mesmo tempo, permanece o desafio de garantir que os jovens encontrem oportunidades de formação e trabalho suficientes para permanecerem no campo e continuarem participando da construção desse modelo. Uma tecnologia social construída pelas comunidades A experiência das cantinas mostra que inovação não significa necessariamente abandonar a tradição. Ao longo de sua história, as comunidades desenvolveram uma forma própria de organizar a comercialização do babaçu, fortalecer a renda das famílias e aproximar a atividade econômica da conservação ambiental. Hoje, tradição e novas tecnologias convivem nesses espaços. O caderno de anotações deu lugar, em parte das atividades, a sistemas digitais. O comércio local passou a incorporar PIX e cartão. Os jovens assumiram novas responsabilidades. E a cadeia produtiva ganhou mercados cada vez mais amplos. Mas o princípio permanece: fortalecer a autonomia das comunidades e valorizar o babaçu como fonte de vida, trabalho e conservação. Muito mais do que uma loja As cantinas nasceram de uma necessidade concreta: criar uma alternativa à exploração e garantir às famílias melhores condições para comercializar aquilo que produzem. Com o passar dos anos, tornaram-se parte da organização econômica e social das comunidades. Elas ajudam a gerar renda, facilitam o acesso a produtos, fortalecem o trabalho das quebradeiras, estimulam a conservação dos babaçuais e aproximam diferentes gerações da organização cooperativa. Por isso, a visita das ministras a uma cantina representa mais do que conhecer um estabelecimento comercial. É conhecer uma experiência construída ao longo de décadas por mulheres, famílias e comunidades que transformaram a valorização do babaçu em uma estratégia de autonomia, geração de renda e defesa do território . Uma cantina pode parecer pequena. Mas carrega uma grande história.
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A Cooperativa dos Pequenos Produtores Agroextrativistas de Lago do Junco (COPPALJ) realizou, no último sábado (25), a 71ª Assembleia Geral Ordinária, reunindo suas sócias e sócios na Comunidade São Manoel, em Lago do Junco (MA). A programação teve como destaques o Sistema Produtivo Integrado e a prestação de contas.
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COPPALJ - Sistema de Produção Integrado, com dona Sibá e Francisco Silva
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Um momento dedicado ao cooperativismo, reflexão e planejamento